Audiovisual e humanização: Padrões mudam em direção ao real

Talvez sua próxima série queridinha do Netflix seja “O Legado de Júpiter”, que estreia no dia 7 de maio. O enredo é interessante: super-heróis centenários estão prestes a se aposentar de seu ofício como salvadores da humanidade e dar o lugar a seus filhos. Em meio a essa transição, surgem diversos conflitos entre os personagens, frutos das diferenças geracionais. 

 

Sim, estamos falando de heróis e heroínas de cabelos brancos e rugas no rosto. A história desconstrói a figura estética e emocionalmente perfeita dos heróis, deixando de lado sua metade “Deus” para evidenciar seus traços humanos: o envelhecimento de seu corpo, dúvidas, falhas e vulnerabilidades. 

 

Durante muito tempo essa forma de retratar os super humanos foi ignorada por Hollywood e agora vem sendo desmistificada a partir de novas apostas das plataformas de streaming. Isso mostra, mais uma vez, que a humanização é um fator que se consolidou nas narrativas e personagens do audiovisual. 

 

Não é possível dizer exatamente quando nem como isso chegou às grandes produções do cinema e gerou reflexos no Oscar, que deixou um pouco de seu glamour no armário. Podemos especular que os filmes de arte independentes preconizaram um pouco desse movimento ao abordar temas globais da condição humana e retratar pessoas reais. Mas há grandes chances de que o verdadeiro catalisador dessa tendência tenha sido a internet e como redes. 

 

Sabe-se que a lógica da indústria do cinema, principalmente depois do impacto da pandemia, vem se adequando à Era Digital e ao crescimento das mediatechs, ou seja, como plataformas de streaming. Nessa realidade, o que norteia temas, formatos e programação é o comportamento do consumidor , prevalecendo a personalização e a customização de conteúdo.

 

Coincidentemente – ou não –  podemos traçar um paralelo entre a questão retratada em “O Legado de Júpiter” e novas tendências de perfis de criadores de conteúdo, por exemplo. O Relatório de Cultura e Tendências do Youtube mostra que o isolamento social em 2020 rendeu muita popularidade a criadores da terceira idade, como um vovô mexicano que ensina a cozinhar e velhinhos alemães que fazem streaming de games. 

 

A obra que inspirou a série da Netflix – uma HQ de 2013 – foi publicada muito antes do ano passado, porém os criadores podem ter percebido que agora seria o momento de investir em um enredo que abordasse o envelhecimento de super-heróis. Assim como, por mais que a especulação dos fãs seja bem antiga, apenas em 2020 a diretora de Matrix, Lilly Wachowski,  confirmou publicamente que a narrativa do longa trata-se de uma metáfora sobre aceitação e transição de gênero. 

 

E o que vem da arte, vai para a publicidade; e vice-versa. O video content também abraçou as narrativas reais e humanas para gerar conexões mais profundas com os consumidores. Marcas que não conseguem construir conteúdos que misturem seus valores a temas relevantes para suas audiências estão fadadas a falhar em sua comunicação.

 

Faz parte da essência humana imaginar universos e criaturas desconhecidas, especular e fugir da realidade por alguns instantes – principalmente quando estamos imobilizados por uma pandemia sem previsão de acabar. Mas é fato que queremos sempre trazer essas histórias para perto, encontrar pontos de intersecção delas com nossas próprias vidas e nos emocionar. 

 

Se “O Legado de Júpiter” será um sucesso, teremos que esperar mais alguns dias para saber. Mas é bom ter a percepção de que, de fato, os padrões estão mudando em direção ao mundo real. 

 

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