Entrevista: Joyce Prado

A carreira de Joyce Prado no audiovisual começa com projetos para cena musical paulistana e pesquisa de imagens para comerciais e filmes. A migração para o cinema aconteceu quando passou a atuar em assistência de produção. Sua primeira experiência com direção foi o curta-metragem Fábula de Vó Ita (2016), que mistura live action e animação para abordar a discriminação racial na primeira infância. A obra despertou em Joyce uma necessidade e decorrente de dedicar seu trabalho às narrativas negras. 

 

A partir daí, preencheu Okán Mimó: Olhares e Palavras de Afeto (2017), Cartas de Maio (2018) , Memórias de um Corpo no Mundo (2018) e a temporada da websérie Empoderadas (2015) . Além disso, hoje comanda a produtora Oxalá Produções e é Diretora Administrativa da APAN (Associação de Profissionais do Audiovisual Negro).

 

No final de 2018, Joyce é convidada pela Abrolhos Filmes para dirigir seu primeiro longa-metragem, o documentário Chico Rei Entre Nós (2020), que fez sua estreia entre os dias 22 de outubro e 4 de novembro na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e participou do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bullbul e do Festival de Cinema de Vitória. 

 

A obra explora os ecos da escravidão no Brasil nos dias de hoje a partir da investigação da história de Chico Rei, heroi africano muito celebrado em Ouro Preto, em Minas Gerais. Rei congolês, Galanga, como também é conhecido, foi trazido como escravo em 1740 para trabalhar no Ciclo do Ouro e comprou sua própria liberdade, ajudando também muitos outros escravos. 

 

Costurando passado e presente, o documentário revelando conhecimentos e tradições da cultura negra que foram apagados, reprimidos ou reescritos ao longo da história brasileira e mostra a força dos movimentos coletivos na resistência. 

 

Em entrevista, Joyce opina sobre uma promoção da história oral como contranarrativa, a importância da historicidade negra no cinema e as manifestações antirracistas de 2020. 

 

Como você começou e qual a sua trajetória até aqui no cinema e no audiovisual? 

Começo no audiovisual para internet na cena de hardcore melódico de São Paulo com gravações de shows, festivais, entrevistas, ali nos anos 2000. Depois, inicio a assistência de produção em cinema e pesquisa de imagens para publicidade. Em 2014, recebo um convite de  Carlos Gananian, que trabalha com temas de fantásticos e de terror, para fazer assistência de produção em um curta-metragem chamado AM/FM (2014), um dos últimos realizados em película. Ali eu começo uma trajetória em cinema. Ainda, fiz direção em publicidade dentro de várias produtoras. Foi uma experiência de três, quatro anos em que aprendi muito da dinâmica de set, equipamentos, diálogos com todas as frentes de equipe. Foi uma preparação muito boa pro cinema, porque ele precisa de tudo isso, mas tem tempo, então é ótimo. Continuando no cinema, assino roteiro e direção com o Chico Toledo de Muros Entre Nós (2014) e mais tarde faço a direção de produção de outro curta do Carlos, o Sol (2017). Em 2016, eu e a Tallita Oshiro somos contempladas no edital Carmen Santos e realizamos o Fábula de Vó Ita (2016), que é live action com animação e fala sobre o racismo na primeira infância a partir da perspectiva de uma menina de 7 anos, que vive isso. E sua avó traz um universo mais lúdico para ela compreender sua identidade, mas também a beleza nos mais diversos corpos e perfis de pessoas. O Fábula também é divisor da minha carreira. É o início de uma direção, a de trabalhar no cinema negro e com ausência de imaginários. Preencher lacuna para as crianças negras a fim de discutir as experiências delas na escola e as formas do racismo na primeira infância. Na produção do Fábula eu conheço a Renata Martins, que é com quem eu realizo a primeira temporada do Empoderadas (2015), uma websérie que teve expressividade naquele momento. Sinto muito por conta disso, que falta uma representação das mulheres negras além do universo do trabalho. Entre as pessoas que a gente entrevistou, tem a Dona Raquel Trindade, filha de Solano Trindade; a poetisa Tula Pilar; a Dediane Souza, mulher trans que atua na administração pública; e a MC Soffia, naquele boom de quando ela tinha uns 10 anos. Então, acabou sendo um espaço de muita experimentação de narrativa, de fotografia, já que a gente filmava também. Saio dessa primeira temporada e a Renata continua com o projeto com uma série de desdobramentos. Em 2017, eu realizo o curta documental Okán Mimó: Olhares e Palavras de Afeto (2017), junto com a Odara Dèlé, que é mais focado em entrevistas com candomblecistas e umbandistas sobre as experiências com seus orixás. Naquele mesmo período, começo uma parceria com a cantora Luedji Luna, retomando esse universo da imagem e da música. E em 2018, eu foco mais na Oxalá Produções, começa mais oportunidade de me consolidar produtora. A gente faz o Cartas de Maio (2018), que é totalmente independente. É um conteúdo que fala muito sobre o processo de pesquisa de maneira autoral, relação com o passado, como a gente se aproxima do passado além de dados, de números, uma aproximação subjetiva. Tenho interesse de fazer uma segunda temporada em 2021. E também no final de 2018 vem o convite para o início do Chico Rei.

 

Como foi dirigir seu primeiro longa-metragem, junto com a equipe da Abrolhos? 

O primeiro contato foi com a Laura Barzotto, produtora-executiva, e a Natália Vestri, que assina o roteiro e assistência de direção, e já tinha uma pesquisa e roteiro prévios do Chico Rei. Antes de entrar no set a gente teve novembro e dezembro de 2018, então, foi uma produção bem intensa no sentido de desenvolvimento. Foi revisitar o roteiro e a pesquisa e entender como tirar o máximo disso para construir uma nova perspectiva mesmo sobre o projeto. Ele deixa de ser um documentário de cunho histórico e formal e que tinha seus momentos de ficcionalização para ser mais investigativo sobre como o Chico Rei permanece presente. Então, a gente teve em dezembro uma primeira pesquisa de personagens e de locação e já em janeiro de 2019 partimos para aqueles dez dias de filmagem durante o período do Reinado. E aí vamos compreendendo. A direção de longa foi muito bom para aprender dinâmica de set, como fazer esses dias renderem material. A formação de equipe também foi muito boa porque respeitou processos anteriores. Eu já havia trabalhado com a Nuna Nunes,diretora de fotografia, e com a Evelyn Santos, técnica de som direto. Eu e a Natália estávamos em contato muito intenso por conta desse pouco tempo para reestruturar o roteiro. A pesquisa da Luana Rocha também teve um papel fundamental para entender o perfil das personagens. 

 

Como foi intercalar as gravações entre Ouro Preto e São Paulo?

Foi um desafio intercalar perfis de cidades tão distintas. Uma cidade histórica, patrimônio da humanidade, onde se tem uma preservação arquitetônica muito forte, mas não há interesse em revelar outras histórias, por mais que se tenha a possibilidade de estar no mesmo espaço, nas mesmas construções, nas mesmas instituições que definiram grande parte do que a gente conhece hoje como Brasil, entendendo a Vila Rica como um espaço fundamental do que é nossa estrutura, mas ainda assim com um olhar muito romantizado sobre essa história. Em São Paulo, a gente está falando do oposto. Um cidade em que a situação de arquitetura muda intensamente, onde constrói-se sobre seus antigos prédios, sobre sua própria história, e também tem em comum  essa marginalização sobre parte de sua história, das pessoas e o que é fundamental na construção dessa cidade e desse país. Então, há o contraste no sentido da arquitetura e da imagem que a gente tem de cada cidade, mas há semelhanças em como operam com a sua população. E aí fazer essa reflexão é realmente o que tende a acontecer ao longo do processo de filmagem, pelo pouco tempo, mas também o que a gente aprendeu ao longo dessas entrevistas. O documentário vai dando pistas de caminhos e você escolhe qual você tem interesse de seguir, de consolidar enquanto narrativa e o que você tem que deixar de lado. E acho que essas interlocuções que afetam tanto a imagem e som quanto roteiro acabam favorecendo uma cumplicidade que se constrói dentro da equipe, muito porque a gente conseguia mesmo após longas diárias sentar e conversar e assistir e fazer ali um momento pós-set. É muito importante ter dentro da dinâmica de um longa, independente de ser documental, ficção ou mesmo de um curta momentos de se reunir com a equipe, principalmente as pessoas cabeças de áreas, que são poucas pessoas, e refletir para onde o filme está indo, entendê-lo enquanto construção sonora, de imagem e discurso. 

 

Quais fatos que você descobriu ao longo do processo que foram mais surpreendentes para você? 

Eu já tinha um bom conhecimento sobre a descaracterização do centro de São Paulo. A gentrificação estimulada pela urbanização da administração pública jogou a população negra que estava no centro para partes mais afastadas. E a gente continua vivendo esse processo. Então eu acho que esse é um ponto que desperta muito interesse das pessoas, mas eu já estava envolvida. Com relação ao congado e as diferentes perfis de guardas de congado, sua origem e como ele representa essa continuidade familiar, uma forma de organização social,  política, religiosa… Eu não tinha essa dimensão. Então, tive que fazer muitas leituras sobre o congado para poder chegar nesse conteúdo e nesse filme de maneira mais consciente do que estava falando e o que cada uma das pessoas sabe e não vai compartilhar comigo. A gente decidiu enquanto caminho de filme, junto à montadora Tatiana Toffoli, de entender que o congado, para se saber mais, tem que fazer parte. Não dá pra explicar coisas que não serão resumidas em palavras. É muito sobre ter uma dimensão além das palavras, sobre você estar lá, participar, tocar, dançar. O que é muito importante a compreensão de como não é uma ação folclórica. Infelizmente algumas práticas são lidas como cultura tradicional e colocadas como folclore. É importante essa nova nomenclatura como uma maneira de devoção, e não um folclore esvaziado de espiritualidade. Como as próprias irmandades. Acho que as irmandades de homens pretos existentes e resistentes até hoje e como elas são espaços, e já foram de maneira mais forte na sociedade, de organização social e política. É muito importante a parte sobre como a presença de muitas igrejas em cidades históricas “não é sobre religião”. A igreja era estado mesmo. Quando a gente olha para essas irmandades de homens pretos, vemos que também eram locais de ponto de encontro onde pessoas negras se reuniam sem o olhar do branco. Virava um espaço para se pensar coisas para dentro da comunidade. Desde fugas e revoltas até celebrações. Da mesma forma que vemos no sincretismo religioso uma apreensão do calendário católico, mas para a celebração de orixás. 

 

Além da questão das irmandades, na sequência filmada dentro da mina o guia levanta a questão da inteligência africana trazida e aplicada pelos escravos e como isso é velado. Quais seus pensamentos sobre essa passagem? 

Aquela é uma parte que quando eu assisto com outras pessoas elas perguntam “Vocês não ficaram angustiadas de ir entrando?”. A maneira como ficou a montagem vai colocando a gente cada vez mais fundo e faz entender que aquele lugar não tem muito um fim. Não tem mesmo. A gente está falando de 3km a 5km de diferentes caminhos desenhados para dentro dessas montanhas. E um dos pontos muito fortes dessa sequência é que a gente combina com a explicação de como era o cotidiano naqueles espaços. E é muito difícil a gente não se projetar naquela situação, de não se imaginar 20h naquele contexto de entrar e sair, carregar terra, ter que tirar 1 tonelada de terra para conseguir 6g de ouro. E é realmente um coisa que faz pensar “Por que um metal precisa custar tantas vidas?”. No final é sobre riqueza. Eu li até algumas críticas do documentário que falam como o didatismo dessa sequência é importante. E até tem um pouco dessa questão na finalização do filme sobre assumir mesmo que era uma condução de guias. É importante pensar quem são esses guias, o quanto eles estão estudando mesmo para tentar consolidar essa historicidade, que é desconhecida, como pesquisam muito, debatem muito, mas sentem a relevância de começar a dar nome aos bois. Porque ao olhar para a estrutura das minas você consegue perceber que a pessoa que fez isso não é qualquer um. Ele sabia o que estava fazendo. Dá pra ver que espaço existe sem desmoronar por 300 anos. É uma dinâmica oposta à construção de minas dos ingleses, que tem muito desmoronamento, porque você está falando sobre implodir montanhas. Quanto mais visar o lucro, mais destruidora sobre a natureza é ação do homem. Passaram 300 anos e, além daquele lugar ainda estar presente, há uma natureza que se mantém. Tinha uma dinâmica de soluções químicas que partiam da natureza. Usava-se óleo de banana, de mamona.. Existe um universo de coisas que já foram utilizadas por nós, mas deixamos de lado pelo que a indústria vai conduzindo. Naquele espaço da mina tem muito o que discutir sobre meios de produção. No fim é sobre isso, meios de produção. 

 

Os guias debatem muito sobre a memória do povo negro e lutam para mantê-la viva. Por outro lado, não há muitos registros e essas histórias são transmitidas na oralidade. Qual a importância disso? 

É muito interessante a gente entender as possibilidades dessa população negra no Brasil no sentido de acesso à escrita formal e informação, isso no pré e pós abolição, como essas leis também impediram o acesso a instituições de ensino, pensando ainda mais nas Ações Afirmativas e no acesso da população negra ao Ensino Superior muito recente. As Ações Afirmativas estão completando 18 anos. Isso não é nada, a gente está falando de duas ou três gerações impactadas. Então, as possibilidades vêm através da oralidade. Acaba sendo uma das maneiras que África usava como transmissão de conhecimentos. Os griôs africanos depois de passar 40 anos da vida ao lado de uma outro griô, passavam a ser um. E como esses processo de ancestralidade se mantém. Quando a gente escuta ternos de congado e canções de capoeira, ali tem muitas histórias, muitas maneiras de transmitir experiências e vivências. Cada vez mais a história oral torna-se a contranarrativa do que está escrito, porque a história oficial vem de uma perspectiva eurocêntrica que anula e ignora outras vivências. Dentro dela, os europeus criaram tudo. Mesmo o que eles não criaram, ele criaram também. Como  a gente encontra outra historicidade e maneiras de transmitir o conhecimento. Muito louco pensar que atualmente o que é real é o que está escrito. Mas temos que começar a pensar quem escreveu o que a gente considera fato. A gente está nesse momento no cinema. Se compreendemos cinema como escrita, semântica, gramática, discurso e a combinação de tudo, ele se torna outra possibilidade de registro de uma historicidade, de memória, de vivência e perspectiva de mundo mesmo.

 

À medida que o documentário traz a memória do Chico Rei para os dias hoje com a ocupação e as associações que buscam a preservação da história no bairro da Liberdade, por exemplo, os entrevistados discutem suas concepções do que seria o Chico Rei. Alguns acreditam que ele foi uma pessoa de fato e que existiam outros escravos como Chico, outros encaram como uma ideia, um sentimento de liberdade. Para você, Joyce, o que é Chico Rei?

Acredito que é uma pessoa que existiu de fato e me alinho nas respostas que sinalizam isso. Como a gente tem uma história romantizada, é romântico para os portugueses que seja só uma pessoa. É uma maneira de dizer que não se existiu resistência. É romantizar para mostrar que o controle era tão forte que em toda a Minas Gerais só existiu uma pessoa como Chico Rei. O que eu sinto que é fato é a presença de muitas outras pessoas com atuação semelhantes e é muito interessante olhar para as leis daquele período e ver como se buscava impedir de todas as maneiras o processo de alforria. A gente precisa rever o passado que não tem registro. Você pensa que um capataz entrava nessas minas ou que todo ouro encontrado era entregue? Temos que ver quais os caminhos que aquelas pessoas da cidade foram encontrando para se alforriar. E quais maneiras o estado encontrou para não só impedir, mas fazer com que alforriados voltassem para a condição de escravizados. Por isso eu penso que diferentes pessoas tinham atuação semelhante ao Chico Rei, assim como o Veloso diz que cada chefe de mina tinha uma atuação muito parecida com Chico. Porque a gente está falando desses detentores de pessoas africanas que, por mais que tivessem o controle violento dos corpos, não tinham conhecimento sobre extração do ouro e produtividade das minas. É muito olhar pro passado e começar a decupar com o cinema. A gente aprende coisas rasas e superficiais. 

 

Em uma conversa, os guias mencionam que poderiam ter existidos até mesmo mulheres líderes como Chico Rei. Histórias de mulheres escravizadas também são pouco contadas. O que você pensa sobre isso? 

Eu gosto muito quando eles falam sobre as quituteiras. Assim como tiveram atuação forte em Ouro Preto, elas são muito fortes também em outras cidades, como Salvador. Dentro da pesquisa do Chico Rei, encontrei uma lei que proibia as quituteiras de adquirirem a alforria ou ser as pesssoas que pagassem a alforria de outras pessoas por um tempo até que se aproximassem da região de Minas. Porque você precisava de alguém que tirasse esse ouro que você juntou para poder garantir a sua alforria. Não tinha como você chegar pro dono e dizer que estava comprando a liberdade. Então, entender também essas mulheres como parte dessas estratégias eu acho que é fundamental. A gente se refere muito à Tereza de Benguela no quilombo Quariterê, ali na região de onde é Mato Grosso, e a relevância da atuação dela, a Maria Felipa também na Bahia. Estamos nesse resgaste histórico intenso enquanto população negra que está acessando os espaços na academia e olhando os documentos sob outra perspectiva. Isso tem feito com que as experiência das mulheres africanas daquele período começassem a ser mais discutidas e publicizadas. E isso está muito no início. Então ainda temos muitas histórias a serem contadas e reveladas. E também a gente não conseguiu colocar no documentário, mas tem essa fábula de que as mulheres não trabalhavam nas minas. Mas elas também trabalharam. Se torna cada vez mais necessário falar dessas experiências. Angela Davis fala em seu livro sobre gênero e raça como não se fazia uma distinção de trabalho por gênero. Independente se era mulher ou homem, as dinâmicas eram iguais na escravidão. 

 

Trazendo a problemática para este ano, tivemos as manifestações antirracistas nos EUA. Como você avalia essa explosão dos protestos neste ano e, para você, qual o papel das artes, do cinema e da música, nesse processo? 

Esse processo que temos vivido eu fico só esperando dois ou três anos para ver o impacto. Porque o que o movimento negro e comunidades racializadas em diferentes partes do mundo estão se mobilizando há décadas. A partir do momento que o sistema racista começou  a ser uma forma de sistema econômico e estruturação da sociedade, essa mobilização já se inicia. A gente tá falando de equidade de acesso a educação, saúde, trabalho, renda, capital, recursos. Por enquanto, eu vejo mais posicionamentos de indivíduos, de marcas. Basicamente palavras. Eu fico esperando as práticas. E elas precisam de algum tempo para serem traduzidas e realizadas, porque estamos questionando sistemas que levam muito tempo para serem alterados. Eu preciso viver com a tranquilidade de que ao longo da minha vida vou ver mais momentos dessa centralização da pauta. Mas eu digo que vou ver muitas vezes porque as práticas construídas serão poucas comparadas com a necessidade de revisitação de um sistema. A gente tem que falar sobre administração pública, representatividade política, cargos executivos. Tudo isso são coisas de que se tem muita resistência para mudar. Se a gente pensar que junto com essa onda de protestos antirracistas houve organizações como Médicos Sem Fronteiras sendo acusados de práticas racistas na sua estrutura… E isso falando de uma organização que vive de doações em cima de atuação dentro de África. Pense nas outras que nem estão tão próximas da temática. Eu sou uma pessoa que aguarda a parte mais prática, penso que é importante centralizar e revisitar a pauta. Mas enquanto pessoa negra não é algo que tenha alterado minha pratica diária de ação antirracista.

 

No documentário há uma música do Emicida. Como essa trilha se encaixa na montagem do filme?

Ele começou a aprender mais sobre o filme a partir da finalização do corte, compreendendo onde era possível entrar com a criação e a letra. Acho que fez mais sentido do que se iniciar algo na pré-produção quando a gente nem sabia direito aonde essa música entraria. E acho que ela faz uma boa ponte entre esse passado que é forte no começo e o que ele gera de reflexão. Acaba casando com essa transição centro-periferia das duas cidades. E traz forma de se aproximar o rap de uma proposição instrumental do Sérgio Pererê, nosso trilheiro, que é uma pesquisa mais voltada pras sonoridades bantus. Acaba tendo aquela instrumentalização ali presente dentro da construção de uma música que não se afasta de ser uma rap do estilo do Emicida e traduz essas camadas de diálogos entre o presente e o passado. 

 

Quais os projetos mais recentes nos quais você tem trabalhado? 

Tenho dois projetos recentes importantes. Fiz uma série de vídeos para a change.org, uma plataforma de petições online, que inclui uma população negra em busca de justiça social para o caso de João Pedro, menino que foi assassinado no Rio de Janeiro dentro de sua casa. Acho que o Chico Rei opera em outra chave dialogando em outras narrativas, mas dialoga em discurso com o desejo da gente confrontar os posicionamentos institucionais. E recentemente fiz o lançamento de um álbum visual da cantora Luedji Luna, que foi um processo mais longo sobre a experiência da mulher negra com sua afetividade. Foram dois processos muito longos de criação. Agora, estou num momento de compreender quais os outros temas e abordagens que trabalharei a partir desses dois conteúdos. 

 

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