Pandemia faz documentários ganharem espaço

O isolamento decorrente da pandemia global de Covid-19 fez aumentar a produção e o consumo do mais jornalístico dos gêneros audiovisuais: os documentários. Para além do formato de longa duração, outras variações das narrativas documentais conquistaram os consumidores de streaming, como as minisséries e os reality shows.  

 

Segundo o Netflix, o consumo dessas produções dobrou em 2020 em relação ao ano anterior. O gigante das plataformas, inclusive, lançou diversos documentários que bombaram no período. Logo nos primeiros meses de isolamento, um dos mais comentados foi Tiger King, que conta em sete episódios a história do polêmico criador de animais exóticos Joe Exotic. Também se destacou Social Dilemma, que despertou o debate sobre as big techs e a privacidade. 

 

O poder das narrativas reais, misteriosas, chocantes ou ocultadas pela história sempre nos atraíram, e tornaram-se ainda mais envolventes com o isolamento social, com o boom do consumo de vídeos online e streaming e as transformações de hábitos e interesses dos consumidores. 

 

Acompanhar a vida de outras pessoas pelas redes sociais, por exemplo, tornou-se uma forma de entretenimento recorrente, assim como buscar tutoriais em plataformas como o Youtube para aprender novas habilidades, fazer exercícios e estudar. Essas mudanças consolidaram uma tendência que vinha se estabelecendo: o interesse por narrativas mais humanas e a busca contínua por conexões. 

 

A expansão da presença de documentários no catálogo dos serviços de streaming tem a ver com essa percepção, mas também se relaciona com o impacto negativo da pandemia na indústria audiovisual. Com paralisações de produção e fechamento de salas de cinema, as produtoras tiveram que se reinventar com o que tinham em mãos. 

 

Uma das saídas foi investigar filmagens arquivadas, abusar de entrevistas por videochamadas e focar em projetos que poderiam ser criados, ao menos em sua maior parte, na fase de pós-produção. Lançar documentários e minisséries documentais garantiu um pouco do fôlego necessário para sustentar a crise do setor, principalmente para produtoras independentes. 

 

A Abrolhos Filmes, por exemplo, finalizou e exibiu o documentário premiado Chico Rei Entre Nós, que registra a história de resistência de um rei Congolês que foi trazido para o Brasil para ser escravo nas minas de Ouro Preto (MG) e comprou sua própria liberdade e a de outros. A produção é um exemplo da relevância de trazer novas narrativas para o audiovisual, como a do movimento negro, e do bom emprego do gênero documental nesse sentido. 

 

Questões sociais e ambientais, que ganharam muito destaque ao longo da crise, assim como assuntos relacionados à vida em casa, como culinária e decoração, tendem a ser abordados pelos serviços de streaming em suas produções ao longo dos próximos meses e no pós-pandemia. Além das minisséries, formatos como tutoriais devem ser mais explorados.

 

Não se pode prever se as produtoras e plataformas de streaming continuarão a apostar as fichas em documentários no pós-pandemia com tanto peso, já que a possibilidade de lançar grandes produções cinematográficas é mais atraente. Mas a certeza é que histórias instigantes, reveladoras e, acima de tudo, humanas, sempre terão espaço nas telinhas dos consumidores. 

 

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